Correr por amor aos cães-guia

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Correr por amor aos cães-guia

Dezembro 26, 2014 - 13:13
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Há quem o confunda com um “maluquinho”. Mas Rui Andrade, militar da Força Aérea, leva a sua missão muito a sério.

Rui Andrade corre por uma causa

O que leva um atleta de pelotão a correr com o peluche de um cão na cabeça? Muitos poderão pensar que se trata de uma brincadeira, mas a verdade é que Rui Andrade leva muito a sério a sua causa. Com 51 anos de idade, este militar da Força Aérea corre sobretudo pela promoção da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV) a única escola portuguesa de cães-guia em Portugal, situada em Mortágua e também contra um preconceito que urge combater: «Os cães-guia são animais excecionais e ainda há muito para fazer na sensibilização das pessoas e das empresas em admitirem a entrada destes cães em espaços públicos» - diz Rui Andrade, que dá um exemplo: «Uma das fases do treino dos cães-guia é serem recebidos por aquilo que chamamos de famílias de acolhimento, que o que fazem é interagir com o cão de forma a que este se habitue a uma série de regras, para quando forem entregues aos cegos, a custo zero, estejam devidamente preparados. Tudo obedece a uma rigorosa lista de critérios, mas ainda é frequente me barrarem a entrada em espaços públicos sempre que me faço acompanhar de um desses cães, apesar de trazer comigo a documentação obrigatória» - explica Rui Andrade, que recorda um caso raro: «No El Corte Inglês fui recebido de forma exemplar e até o segurança recebeu uma reprimenda do seu superior por me terem criado problemas ao entrar naquele espaço comercial acompanhado do cão labrador que me havia sido confiado pela Associação».

Perguntem a um cego e irão ter a resposta do quão importante estes animais são para eles

Os excecionais labradores

São sobretudo labradores os cães-guia para cegos treinados pela Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual. Foram tentadas experiências com outras raças de cães, mas os labradores destacam-se claramente. Vêm de França ou das ninhadas de cães da ABAADV e ao longo dos seus 15 anos de existência esta associação já certificou e entregou 150 cães guia a cegos num processo moroso e dispendioso: «O custo aproximado do treino de um cão-guia é de 17 500 euros, sendo que 60% são suportados pelo Estado e os restantes têm de ser garantidos por donativos ou outras ações pontuais que possam ser feitas» - explica Rui Andrade que ainda tentou que algumas empresas patrocinassem cada quilómetro percorrido em provas, mas cedo desistiu da ideia: «Em Portugal ainda não há muito esse hábito de as empresas terem uma responsabilidade social associada à corrida e a estas causas, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Inglaterra. E depois de receber muitas respostas negativas, então decidi que o melhor que tinha a fazer era continuar a correr com o cão de peluche na cabeça, sobretudo como forma de sensibilização», diz Rui Andrade, que recorda como tudo começou: «Foi há precisamente um ano atrás, a 15 de dezembro, que na São Silvestre do Porto perdi a timidez e apareci com o peluche e logo começaram a dizer que eu tinha a cabeça mais bonita da prova. Já tinha corrido com o logotipo da ABAADV impresso na camisola mas passava despercebido» - admite Rui Andrade, cujo amor aos cães é indisfarçável: «Perguntem a um cego e irão ter a resposta do quão importante estes animais são para eles» - E Rui Andrade faz questão de lembrar as ligações que ficam para toda a vida: «Como famílias de acolhimento temos a responsabilidade de intervir também no plano de formação dos cães-guia e isso é extremamente reconfortante, pois sabemos que estamos a ajudar para mudar a vida de alguém» - e dá um exemplo: «Entre os cegos que beneficiaram do trabalho da Associação na preparação e treino dos cães-guia, temos alguns que são músicos e que dedicaram vários temas, cujas letras não são mais do que um profundo agradecimento aos seus fiéis companheiros».
E Rui termina com uma graça: «Quando corro ainda há quem grite: “Olha aquele com um urso na cabeça!” - ao que eu ainda vou a tempo de responder: - “Não é um urso. É um cão”».