Fundistas precisam-se

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Fundistas precisam-se

Outubro 10, 2015 - 13:18
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Não há que esconder a realidade. O meio-fundo e fundo português vive uma crise profunda com tendência para se agravar. Soluções?

Dos 800 metros à maratona, o meio-fundo e fundo português regista indíces qualitativos de resultados que preocupam, agravado pelo facto de que o aparecimento dos jovens talentos não estar a acontecer como seria desejável, o que é outro sério aviso, numa altura em que as seleções nacionais, mais do que nunca, refletem essa crise por demais evidente. Há as exceções, que contudo não chegam para fazer esquecer os chamados tempos aúreos do meio-fundo e fundo português dos anos 80 e 90 do século XX. Mas afinal o que terá mudado nos últimos vinte anos para que, de forma progressiva, se tenha chegado a esta situação que tem tendência para se agravar à medida que muitos dos melhores meio-fundistas portugueses se aproximam do final das suas carreiras?

 

As respostas a esta difícil pergunta podiam muito bem servir de base a uma qualquer tese de mestrado, pela sua complexidade e porque é uma análise inter-disciplinar em que há que ter em conta a própria evolução sociólogica do país. Os fatores são muitos e variados mas para se chegarem a conclusões e agir é importante que a reflexão possa ser conjunta e na qual intervenham atletas, antigos atletas, treinadores e dirigentes.

 

No quadro competitivo cabe então à Federação Portuguesa de Atletismo assumir a condução de um debate que não pode ser feito de pontas soltas, como este simples artigo de opinião, que não é mais do que um alerta para um tema que é motivo de preocupação e interrogação, tendo em conta o histórico de resultados de valia internacional dos atletas portugueses de meio-fundo e fundo no passado.

 

Treino científico versus treino emocional

Em conversas que fui mantendo com antigos atletas há uma tónica dominante no seu discurso: A crítica à excessiva teorização de alguns dos atuais métodos de treino que fazem inverter os papéis em que o protagonismo maior é do treinador e não do atleta. Esta crítica é recorrente e faz algum sentido tanto mais que os níveis de motivação não podem ser avaliados com precisão matemática, assim como a capacidade de resiliência, fundamental no perfil psicológico dos atletas de meio-fundo e fundo. E estas eram precisamente as características que eram exploradas ao limite por atletas élite já retirados que usam uma expressão curiosa mas que reflete bem a importância do treino emocional: “Naqueles tempos treinava-se com garra” - dizem com orgulho indisfarçável.

 

Runing versus atletismo

Muitos dos potenciais talentos do meio-fundo e fundo portugueses acabam, inevitavelmente, por se perder para o jogging/running ou corrida ocasional, que são realidades muito distantes do atletismo federado. É uma tendência que reflete o crescimento exponencial da corrida enquanto forma de lazer, manutenção física e socialização, que sendo óptima nessa prespetiva, acaba por ofuscar o atletismo de competição propriamente dito. A culpa não é do fenómeno do running, como é óbvio, mas essencialmente do atletismo federado na sua globalidade, que não foi capaz de acompanhar e se adaptar a esta nova realidade. O aparecimento de grupos informais de treino acontece com muita frequência (muitas vezes com total ausência ou deficiente acompanhamento técnico) e os clubes, na sua maioria, deixaram escapar uma oportunidade de introduzirem uma variante mais social e descontraída na sua atividade corrente, podendo inclusivé fazer transitar alguns desses atletas para a competição propriamente dita. Essa dificuldade em se adapatarem a esta nova realidade fez com que o número de praticantes federados que se dedica ao meio-fundo tenha conhecido um decréscimo nos últimos anos, o que é paradoxal, atendendo ao número crescente de participantes em provas populares.

 

O papel dos corta-matos escolares

São inúmeros os casos de sucesso de atletas portugueses que despontaram para o atletismo, ainda em tenra idade, nos corta-matos escolares. São por excelência, o grande viveiro do meio-fundo em Portugal e o Ministério da Educação mantém uma extensa rede de provas a nível nacional, divididas pelas diferentes Direções Regionais de Educação. São pois, oportunidades que se oferecem a cada ano, onde facilmente se descobrem jovens com apetências inatas para a modalidade que deverão ser referenciados e indicados aos clubes, em especial aqueles que não estão filiados em nenhuma coletividade dedicada ao atletismo. E tanto quanto se sabe esse trabalho não é feito, perdendo-se uma oportunidade de exceção.

 

Formação e formação contínua de treinadores

Essencial no sucesso de base de uma reestruturação do meio-fundo e fundo português, é a formação de novos treinadores e formação contínua dos já existentes, mas que não se afigura uma tarefa fácil. Alfredo Barbosa, treinador de atletas como António Pinto ou Fernanda Ribeiro, em declarações ao Atletas.net há cerca de um ano, pouco antes da sua morte, dava conta da sua desilusão: «Os treinadores hoje em dia têm todos inveja uns dos outros e já não partilham entre si a experiência que têm com os seus atletas, as séries que fazem, etc. É cada um por si e isso não abona a favor do futuro do atletismo português». Alfredo Barbosa tinha alguma razão, mas vivemos outros tempos, em que o segredo é, literalmente, a alma do negócio e isso leva-nos a essa mudança de mentalidade que acompanha a própria evolução sociológica do país. O assunto daria pano para mangas mas é mais uma achega para o debate.

 

E é o debate de ideias e o despertar de consciências que se espera que aconteça no sentido de viabilizar algo que urge começar: A Reforma de Fundo do Meio-fundo e Fundo em Portugal. Será seguramente um processo lento, que a ter sucesso levará anos, mas facilmente concordarão que alguma coisa é preciso que seja feita e urgentemente sob pena de as gerações mais jovens perderem as referências nacionais do que mais icónico o atletismo tem.