Números duvidosos

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Números duvidosos

Março 15, 2015 - 23:22
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Em algumas provas serão os números de participantes anunciados pelas organizações manifestamente exagerados? Uma rápida observação faz crer que há contas que não batem certo e a figura do arredondar assume contornos de verdadeira hipérbole...

O assunto não é novo mas ganha força quando a atualidade assim o exige. Afinal quantos somos verdadeiramente nesta ou naquela prova? Este poderia ser um sub-título deste artigo de opinião que toca num tema aparentemente despercebido, mas sensível, que belisca o ego de algumas organizações de provas populares tão em voga, que anunciam números de participação manifestamente exagerados em relação à realidade. E o truque, se assim se pode dizer, está em baralhar o discernimento objetivo com os dados sempre dúvios das caminhadas, que não tendo classificações, são praticamente impossíveis de contabilizar para o grande público, a quem a informação chega, em alguns casos, deliberadamente manipulada e sem que a imprensa sequer questione a veracidade dos comunicados.
 

A ressalva vai para aquilo que são as expectativas da organização e essas podem pecar por excesso sem que isso seja fugir à verdade. Outra coisa é a confirmação após a prova dos números anteriormente anunciados e em muitos casos a figura do arrendondar é já por si exagerada, como se pode facilmente constatar.

 

A técnica é pois conhecida e comentada nos bastidores e é causa de desconforto entre organizadores por razões opostas. Na verdade o que são cinco mil podem, por sugestão, parecer o dobro e facilmente somos levados na ilusão. Mas uma simples observação dos números de atletas cronometrados, esses sim indisfarçáveis, a que se soma o conhecimento de causa, presencial, do evento em questão, do cálculo visual e sempre difícil dos caminhantes e chega-se assim a uma estimativa aproximada de um total cuja constatação esbarra, não raras vezes, na realidade camuflada.

 

Há, pois, eventos e organizações que repetem essas práticas condenáveis e que se saiba uma tal de APOPA – Associação Portuguesa de Organizadores de Provas de Atletismo, com assento na Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Atletismo, não é mais que uma serventia de interesses privados, um grupo fechado a uma élite e como tal muito pouco representativa dos interesses da esmagadora maioria dos organizadores das provas de atletismo popular que se realizam em Portugal e onde este e outros assuntos deveriam ser tratados em sede própria. A luta pela transparência fica assim condenada à nascença e é fácil de se perceber do porquê. Afinal há verdades que incomodam.

 

Um caso concreto

Fui desafiado por estes dias a comentar os 13 mil atletas anunciados pela organização da Corrida do Dia do Pai, hoje disputada no Porto. Não comentei na altura, deixando para depois da prova essa mera obervação. E faço-o agora publicamente no exercício de uma simples operação de aritmética: Terminam a prova 4738 atletas, os cronometrados na prova de 10 quilómetros. Disso não há dúvidas. Significa então que a caminhada contou com 8262 participantes? Quem lá esteve sabe bem que não, que a caminhada era uma minoria em relação à prova principal. As conclusões tira-as cada um e mais uma vez a reflexão que aqui deixo não é mais do que uma repetição do que acontece um pouco por todo o país, com certas organizações a elevarem as estimativas de participação ao campo do ridículo, para justificar apoios, patrocínios, alimentar rivalidades e egos pessoais.
 

Em Espanha uma situação destas seria altamente condenável. Aliás, as organizações no país vizinho remetem-se aos números de atletas cronometrados e ponto final. 

 

Ação da Federação Portuguesa de Atletismo

Com o crescimento incontornável do movimento da corrida em Portugal, a Federação Portuguesa de Atletismo viu-se a braços com uma série de problemas onde a transparência dos números de participação é apenas mais um de um leque de questões de aparente somenos importância. Contudo, a estrutura federativa não está formatada para as corridas populares, mas sim para o atletismo de competição e compreende-se. Mas urge se adaptar na iminência de o fenómeno das corridas de estrada e de trail em Portugal ficar completamente fora de controlo e assistirmos a situações desta natureza que no mínimo deixa intrigados a quem não se deixa levar facilmente pelas aparências e pelo aparato.

 

É bom lembrar que em Julho de 2014 foi organizado um seminário, sob a égide da Federação, dedicado aos organizadores de provas de atletismo, onde se anunciou que as entidades que não estivessem presentes estariam impedidas de organizar corridas de atletismo em 2015. Como se percebe nada disso aconteceu. Aliás, o referido seminário não foi mais que um passeio de vaidades de feitos e feitios e daí não saíu nenhuma medida vísivel e com efeitos práticos até à data no que diz respeito ao movimento da corrida popular em Portugal.
 

A reflexão está feita. Boas corridas.  

 

José Manuel Henriques 
Diretor do Atletas.net

Existe 1 comentário

Retrato de Domingos Moreira

Meu bom amigo José Manuel, estou totalmente de acordo com o que o amigo diz. Esta questão do número de participantes nas provas que alguns organizadores ditam para a comunicação social, são em muitos casos aberrantes, querem de fazer de nós parvos, que andámos cá a muitos anos e alguns de nós temos a noção de quantos atletas ocupam num Metro Quadrado, depois é só fazer as contas e vemos que os números que publicam são uma mentira, mas é com isso que vivem e vangloriam-se que são os maiores.Dois amigos meus do CAP já uns anos que veêm a falar nisso, um deles que é jornalista já comentou isso nas redes sociais, no Jornal que escreve não sei a certeza. É necessário e urgente que que a Federação intervenha nesta questão. Vamos aguardar. Um abraço.
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