O reverso da ponte da Meia maratona de Lisboa

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O reverso da ponte da Meia maratona de Lisboa

Março 23, 2015 - 20:02
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É a maior prova portuguesa, com certeza, mas não significa que esteja isenta de erros, que teimam em se repetir. É hora de Carlos Móia e companhia refletirem sobre o que o povo pensa.

A imagem, icónica, da ponte 25 de abril repleta de gente apeada, é, indiscutivelmente, um postal belíssimo da cidade de Lisboa. É, também, sem margem para dúvidas, a maior prova portuguesa: 10 555 atletas chegados ao final da meia-maratona, a que se junta um número indeterminado na mini de 8 quilómetros, estimando a organização em 35 mil o total dos participantes. São pois, números assombrosos e há que dar o devido mérito ao Maratona Clube de Portugal, que tem uma carteira de saber acumulado de grande valor.

 

Mas estes números são precisamente a grande dor de cabeça de toda a organização encabeçada por Carlos Móia, que há muito que percebeu que a Mini Maratona pode ser um pau de dois bicos. A tentação é grande e é legítima de encher a ponte de gente para a tal fotografia icónica mas esta 25ª edição esteve longe de ser uma celebração condigna das bodas de prata de um casamento que se deseja duradouro.

 

Uma simples pesquisa pelo google por “Meia Maratona de Lisboa” e remete-nos de imediato, em primeira instância, para as notícias da morte de um participante, o que já não é a primeira vez que acontece na Meia Maratona de Lisboa, e que naturalmente, acabou por ofuscar o brilho do evento em si, sem que a organização possa ser responsabilizada por um acidente completamente fortuito.

 

Fortuito e invulgar foi também a queda de Mo Farah no sprint final, quando as duas assistentes largaram ambas a fita de meta, fazendo tropeçar o vencedor. Valeram os reflexos do atleta somali naturalizado britânico e uma dose de sorte no meio do azar à mistura quando todos os olhares estavam postos naquele momento.

 

Contudo esses são os percalços inerentes a uma qualquer organização e portanto inponderáveis que não se esperam e que não se conseguem evitar.

 

O mesmo não se pode dizer daquilo que se percebe facilmente e com antecedência que não vai correr bem, mas que a organização insiste, ano após ano, em total desalinho por aquilo que deve ser o respeito aos atletas e a quem treinou arduamente para correr os 21097,5 metros da meia maratona, mesmo tratando-se de atletas amadores.

 

Questionava-me, pois, ao ver as imagens em direto, porque razão participantes da mini maratona, nalguns casos com aspecto físico de pouco exercício, ostentavam um dorsal VIP enquanto se passeavam à frente da multidão em espera, na procura da melhor selfie, posando para as câmeras de televisão com um ar supremo de felicidade, como se já tivessem batido, por antecipação, um qualquer recorde.

 

Mas quando pensava que talvez fosse um preciosismo pessoal, eis que nas redes sociais multiplicaram-se os comentários de desagrado face à confusão gerada na partida, no tabuleiro da ponte, onde se misturaram, sem critério algum, participantes da Mini e da Meia Maratona, com VIP´s à frente de todos. O que se seguiria era fácil de adivinhar e se havia alguém que pensava que ía desafiar os melhores registos pessoais, cedo se desenganou porque os constantes zigue-zagues entre quem se passeava literalmente na ponte deitaram por terra as ambições pessoais de muitos atletas.

 

É este o maior problema da Meia Maratona de Lisboa e não é de agora e é, acreditem, uma questão cultural também. E se é verdade que não é fácil de controlar aquela gente imensa é bom lembrar que não é impossível. Veja-se o caso exemplar das partidas por ondas em algumas das grandes maratonas internacionais e perceberão a diferença. Com um pormenor... Todos correm. Todos!

 

Chegámos assim ao coração do problema, que como disse é também cultural. Carlos Móia admitia publicamente, num seminário onde estive presente, as preocupações, enquanto organizador, pelo facto de a maioria das pessoas que participavam na Meia maratona de Lisboa não ter hábitos regulares de prática desportiva. Isso faz, digo eu, que encarem o evento como um divertimento e não como uma corrida na sua essência, em claro conflito com aqueles que treinaram arduamente para ali estarem. Importa pois, que Carlos Móia e sua equipa possam rever esta situação que não dignifica a maior prova portuguesa.

 

E já agora lanço ao debate uma provocação intencional: Imaginemos que o Princípe Harry decidia participar na Maratona de Londres. Acreditam mesmo que a organização lhe iria dar um dorsal VIP? Mesmo sendo o neto da Rainha de Inglaterra, a resposta é óbvia e é não, porque um dorsal VIP, para aqueles lados, é suposto ser atríbuido sim, mas a quem conseguiu esse estatuto com treino, esforço e sacrifício e não a quem ostenta títulos, riqueza material ou se arma de simpatias e favores pessoais. E até aqui existe alguma ironia no facto de a prova se iniciar na ponte 25 de abril, símbolo dos valores de liberdade e igualdade para os portugueses.

 

E parafraseando o filósofo Herbert Spencer, termino, lembrando que “a liberdade de cada um termina quando começa a liberdade do outro”.

 

A reflexão está feita. Boas corridas.
 

José Manuel Henriques
Diretor do Atletas.net