Na Ilha do Pico há uma corrida diferente

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Na Ilha do Pico há uma corrida diferente

Janeiro 09, 2015 - 22:01
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Na ilha do Pico, nos Açores, esta não é apenas mais uma corrida. A Corrida dos Reis é a corrida, é a festa e tudo o mais que diz bem com a arte de bem receber...E é já no dia 18 de janeiro que se assinalam as Bodas de Prata. 25 anos que passaram a correr...

Prova das crianças é um dos pontos altos do evento

Esta bem que podia ser uma entre tantas outras corridas, mas definitivamente e Corrida dos Reis, na Ilha do Pico, nos Açores, tem algo de diferente. E que o digam os atletas, muitos deles repetentes, que de há uns anos a esta parte, vindos do continente, rumam á ilha-montanha, a pretexto de uma corrida que é sobretudo uma festa da ilha que os recebe de braços abertos. A caminho dos seus 25 anos de existência, a Corrida dos Reis já faz parte integrante da história recente da Ilha do Pico.
A ideia surgiu à mesa de um café, numa conversa casual entre Carlos Maciel e João Castro, o então diretor do Inatel da Horta. Uma folha de papel A4 foi o suficiente para se delinear os objetivos da ideia que tomou forma à volta de um cartaz feito num dos poucos computadores da ilha, pertença do irmão de João Castro, que havia chegado recentemente dos Estados Unidos.
E foi assim que em dezembro de 1990, numa operação relâmpago, Carlos Maciel, o ainda diretor da prova, tomou à pressa o voo para Lisboa e assegurou a vinda de Fernando Mamede ao Pico. No dia combinado, no cais da Madalena, esperava ao atleta sportinguista uma imagem que dificilmente esquecerá. O cais, à pinha, repleto de gente, que de todos os pontos da ilha vieram ao final da tarde para receber, em êxtase, o atleta de que se falava, e que chegou, surpreso, a bordo da velhinha Espalamaca, a lancha de madeira que fazia a ligação entre o Faial e o Pico.
Idênticas receções tiveram Carlos Lopes e Rosa Mota, esta última com fortes ligações à Corrida dos Reis do Pico, onde é presença habitual, ostentanto o título de Embaixadora da prova.

Aquilo que para uns pode ser pouco para nós é quase tudo

Nos primeiros anos, à falta de dinheiro, a população da ilha envolveu-se na festa de tal forma, que para os miúdos das escolas, depois das corridas, lá os esperavam os lanches de recompensa, que os agricultores da terra faziam questão de garantir no mugir madrugador das vacas que povoam as encostas férteis da ilha.
E aquilo que começou por ser uma corrida à escala local, volvidos cinco anos, passou a ter a presença de atletas do continente que deram um novo alento e responsabilidade à Corrida dos Reis, como explica Carlos Maciel: «O nosso objetivo passou, a dada altura, pela promoção do Pico e trazer atletas do continente à ilha. Criámos um programa de quatro dias, envolvemos a população e as instituições e o resultado está à vista, naquilo que mais do que uma corrida, é uma festa» - admite o diretor da prova, cujo trabalho foi reconhecido pela autarquia da Madalena que lhe atribuíu a Chave de Honra do Município, a mais alta condecoração honorifica da ilha do Pico.

A hora da missa que mudou e o voo inaugural para o Pico

A insularidade transforma as pequenas conquistas em grandes vitórias. E o prenúncio veio do pároco da freguesia de S. Mateus que acedeu a mudar a hora da missa domingueira, para que o povo pudesse sair à rua e apaudir a sua corrida. Mas não só... Carlos Maciel lembra, com detalhes cirúrgicos, o momento em que o Airbus A320-214 Almada Negreiros, estreou o novo aeroporto do Pico, num voo direto, vindo de Lisboa e que trouxe os atletas do Continente à Ilha do Pico: «Foi em 2006 e foi um momento que jamais esquecerei, muito emotivo, porque foi algo pelo qual, nós, picarotos, muito lutámos» - lembra Carlos Maciel, que sorri ao recordar a cara de espanto dos atletas e da tripulação da TAP quando foram recebidos em plena pista do aeroporto com toda a pompa e circunstância, com direito a banda e tudo.
E o segredo da prova está aí mesmo: Na arte genuína de bem receber, a que se alia a gastronomia regional, os vinhos, as amplas adegas e as tascas minúsculas, numa paisagem de cortar a respiração, ou não tivesse a montanha do Pico o ponto mais alto de Portugal, com vista para o Atlântico imenso.
E Carlos Maciel termina com uma frase que reflete o espirito da prova: «Se me dissessem há 25 anos atrás que a Corrida dos Reis do Pico se transformaria no evento que é hoje eu diria que não era possível. Para nós, que não temos indústria, o turismo é o futuro e temos consciência disso mesmo. Daí vem também muita da hospitalidade que nos é reconhecida e aquilo que para uns pode ser pouco para nós é quase tudo».