Terry Fox – A corrida por um milagre

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Terry Fox – A corrida por um milagre

Março 21, 2015 - 14:35
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A história inspiradora de um jovem que correndo, uniu toda uma nação em volta de uma causa e fez pensar o mundo inteiro...

A história de Terry Fox reveste-se dos condimentos na medida certa de um argumento de um filme baseado em factos verídicos. Estávamos a 12 de abril de 1980 quando um jovem de 21 anos, amputado da perna direita, inicia em St. John´s, na Columbia Britânica, uma viagem improvável. A travessia de todo o Canadá, costa a costa, correndo uma maratona por dia. Seriam 8 mil quilómetros. E seriam, porque Terry Fox acabou vencido pela doença, depois de 142 longos dias e 142 sofridas maratonas...

 

Terrance “Terry” Stanley Fox nasceu a 28 de julho de 1958 na cidade de Winnipeg, no Canadá. Cedo demonstrou gosto pela prática desportiva, em desportos como o futebol e basebol. Mas era no basquetebol que Terry estava concentrado e depois de não ser primeira opção para a equipa da escola, o seu treinador convenceu-o a integrar a equipa de corta-mato, o que Terry fez, embora contrariado. A sua determinação fez com que fosse aceite de volta à equipa de basquetebol e ao fim de dois anos era eleito o melhor jogador.

 

O carácter perserverante de Terry fez com que este ignorasse as dores no joelho direito por mais de um ano, depois de um acidente automóvel ter intensificado a lesão. Os exames médicos confirmavam uma notícia devastadora: Terry tinha osteossarcoma, um cancro dos ossos com tendência a afetar os pulmões e que obrigava à amputação da perna direita onde o tumor se havia alojado. Terry rejeitou incialmente mas meses depois viu-se obrigado a aceitar as evidências e com 18 anos de idade viu-lhe ser amputada a perna direita. Seguiu-se um período de recuperação e tratamento contra o cancro numa clínica especializada e é nessa altura que Terry se dá conta da falta de meios na investigação das doenças relacionadas com o cancro. Uma vez mais o espírito combatido de Terry vem ao de cima e os médicos surpreenderam-se com a capacidade de recuperação do jovem, fruto da sua atitude positiva perante a doença. Foi convidado para integrar uma equipa de basquetebol em cadeira de rodas e nos três anos seguintes Terry Fox foi campeão nacional.

 

Parece que todos perdem a esperança em tentarem. Eu não. Não é fácil nem é suposto que seja, mas eu estou a tentar - Terry Fox

 

Certo dia, quando se preparava para mais uma cirurgia no combate ao cancro de que padecia, Terry depara-se com um artigo de jornal onde se dava conta da proeza de Dick Traum, o primeiro atleta amputado do mundo a terminar a Maratona de Nova Iorque. Foi, pois um momento redentor para Terry, que meses depois estava a treinar para também ele terminar uma maratona. Contrariando o bom senso Terry treinava em sessões de 20 minutos de grande sofrimento, onde a pressão exercida na perna esquerda causava-lhe dores angustiantes, a que se juntavam as maleitas da perna amputada, onde eram visíveis as feridas que teimavam em não cicatrizar.

 

Contra todas as probabilidades, em Agosto de 1979 Terry Fox termina a Maratona de Prince George no último lugar, numa chegada emotiva, entre aplusos e lágrimas. Mas dentro de si evoluia um desejo secreto e é depois da sua primeira maratona que revela os seus verdadeiros planos à família: Correr o Canadá, de costa a costa, ao longo de mais de 8 mil quilómetros. A revelação levou a discussões familiares e nem a própria mãe o conseguiu demover.

 

É então que a 15 de outubro de 1979 Terry Fox escreve uma carta à Sociedade Canadiana de Cancro, onde dá conta dos seus intentos. A instituição primeiro colocou reservas em dar o seu aval à epopeia de Terry, mas depois de exigir um termo de responsabilidade aceitou apoiar a aventura do jovem que se propunha não só a cruzar todo o Canadá, mas também a angariar uma quantia de 24 milhões de doláres, o equivalente a 1 dolár por cada canadiano, o que não foi levado a sério.

 

Terry Fox conseguiu patrocínios para a sua longa viagem. Desde logo a Ford forneceu a carrinha usada e que seria conduzida pelo seu amigo Doug Alward. A Imperial Oil ofereceu o combustível e a Adidas as sapatilhas. E assim, a 12 de abril de 1980, Terry Fox fez-se à estrada para uma viagem que emociou primeiro o Canadá e depois o mundo inteiro.

 

A epopeia

Uma maratona por dia. Terry Fox tinha este desígnio, assim como o de angariar dinheiro para a pesquisa contra o cancro e em boa verdade as recepções de que foi alvo nos primeiros dias desapontaram as expetativas. Mas Terry não desistiu e enquanto a notícia corria, eis que acontece a primeira grande receção: Ao chegar à pequena cidade de Port aux Basques, esperava-o uma multidão de 10 mil pessoas e um generoso donativo de um pouco mais de 10 mil doláres.

 

Terry enfrentou tempestades, dores no limiar do insuportável e frequentemente automobilistas tentaram empurrá-lo para fora da estrada. Mas o espírito combativo de Terry era mais forte e a notícia do feito do jovem de 21 anos tomava proporções de televisão. Aos poucos, todo o Canadá rendia-se a Terry Fox. E foi assim durante 142 consecutivos dias, até que a doença, galopante, acabou por ditar o fim da viagem. O cancro havia-se alastrado aos pulmões e escasso de forças Terry foi levado ao hospital pelo seu amigo Doug. As complicações médicas multiplicaram-se nos meses que se seguiram e a 19 de junho de 1981 Terry Fox acabaria por falecer, tendo o governo canadiano decretado luto nacional. Tinha 22 anos.

 

Percorreu 5 373 quilómetros, sem conseguir chegar à costa do Oceano Pacífico, mas deixou uma mensagem de esperança naquela que ele intitulara de Maratona da Esperança: “Parece que todos perdem a esperança em tentarem. Eu não. Não é fácil nem é suposto que seja, mas eu estou a tentar. Quantas pessoas desistem de tentar algo de bom. Estou certo que poderíamos ter conseguido uma cura para o cancro há 20 anos atrás se realmente tivessemos tentado» - disse Terry Fox.

 

O legado que Terry Fox deixou comoveu toda uma nação e faz parte da própria história do Canadá, onde é herói nacional. E perdura a mensagem que se mantém atual nos dias que correm, em todo o mundo. E o sonho, aparentemente utópico de um jovem em fim de vida, já fez com que fossem angariados mais de 600 milhões de dólares para a pesquisa contra o cancro em todo o mundo, em seu nome

 

O seu exemplo já deu origem a estátuas, filmes, selos, livros, corridas, tudo em sua homenagem. Mas é a sua história, verdadeiramente inspiradora, que faz da solidariedade na corrida uma linguagem universal.